sexta-feira, 28 de setembro de 2018

PEGA A PIPOCA: LOLITA E A ROMANTIZAÇÃO DO ABUSO SEXUAL



Nota: Antes de começarmos quero deixar claro que eu não acho que o próprio Nabokov fosse um pedófilo. Eu não acho que ele tenha escrito este livro com a intenção de romantizar a situação, pelo o contrário, acredito que a intenção do autor era, na verdade, escrever uma narrativa a partir da perspectiva de um verdadeiro vilão / criminoso e alertar as pessoas sobre o crime. Não estou dizendo que este livro não deva ser lido / vendido. No entanto, embora eu ache que essa narrativa seja importante, sou inflexível em não romantizar os eventos. Eu decidi postar este artigo, pois estamos vivendo um momento de romantização do assédio e existe um equívoco comum de que Lolita tem algo a ver com amor. Não tem. Teremos spoilers.

Lolita de Vladimir Nabokov é um livro extremamente conhecido. Alguns consideram uma história de amor, algo que eu considero profundamente falho, falho sendo um eufemismo grosseiro. Nós vemos e ouvimos algumas referências a Lolita na cultura pop. As canções de Lana Del Rey, Lolita e Off to the Races,incorporam linhas ou conceitos da narrativa, Pretty Little Liars usa o livro como uma pista na segunda temporada para explicar o apelido de um personagem: Vivian Darkbloom. Além do estilo Lolita para citar apenas alguns exemplos.

Muitos de nós já ouvimos a famosa introdução: "Lolitaluz da minha vidafogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma..." e sem o devido contexto, essas linhas podem parecer românticas. O motivo inicial que me fez comprar Lolita quando ainda era uma adolescente, foram essas linhas de abertura e o senso comum de que se tratava de uma linda história de amor.  Eu não tinha ideia de que estava comprando uma narrativa sobre a perspectiva da mente de um pedófilo e isso me fez pensar em todas as vezes em que me indicaram esse livro. A pedofilia nunca foi citada como parte da história.

Aqui estão 10 razões pelas quais Lolita não deve ser romantizado:

1)    Humbert Humbert não é um mocinho. Ele é sexualmente atraído por crianças. As 'ninfetas' que ele descreve não são mulheres, são meninas pré-adolescentes. A pedofilia, quando praticada, é uma coisa horrenda que traumatiza suas vítimas. E Humbert coloca em prática suas fantasias, o que o torna nada além de um pedófilo.

2)    Lolita, nome verdadeiro Dolores, é uma criança. Dolores Haze, a própria Lolita, é uma garota de 12 anos. Você leu certo, ela tem doze anos e Humbert decide alugar o quarto na casa da garota apenas para ficar próximo a ela.

3)    Humbert manipula seu caminho em sua vida. Depois de inicialmente se situar mais perto de Dolores, Humbert finge amar a mãe de Dolores, casando-se com ela enquanto continua a ficar obcecada pela menina.

4)    Humbert sequestra Dolores e mente sobre a morte de sua mãe.  Quando a mãe de Dolores morre atropelada por um carro, Humbert vai buscar Dolores no acampamento, mentindo e alegando que sua mãe está doente e que eles irão visitá-la. Humbert é seu novo padrasto e, embora saiba que não deveria, corre para buscá-la, temendo que ela seja enviada para morar com parentes de sangue  e fique longe dele.

5)    Humbert estupra repetidamente Dolores. Depois de sequestrar Dolores, Humbert repetidamente a estupra. As agressões começam nos quartos de hotel e duram pelo resto do “romance” até que ela finalmente escapa com a ajuda de um homem desconhecido.

6)    Nunca é um bom momento para romantizar estupro. Eu sinto que isso deveria ser óbvio, mas, digamos que você tenha lido Lolita e não tenha interpretado essas cenas como estupro, tenha em mente apenas um fator determinante: Dolores é uma criança.

7)    Vivemos em uma sociedade que está repleta da hipersexualização de meninas jovens. O conceito da ninfeta é, por si próprio, horripilante. É um termo cunhado para se referir a crianças que um homem adulto acha sexualmente atraente. Este não é um comportamento que deve ser tolerado em nossa sociedade, muito menos romantizado.

8)    As experiências de Delores não são românticas, são traumáticas. Eu não vou começar este conceito com “imagine ser uma vítima de estupro de 12 anos, forçada a viver com seu estuprador”, porque, felizmente, não posso imaginar esse tipo de inferno. Não é possível que alguém que não estivesse nessa situação pudesse, mas eu me sinto confortável supondo que isso fosse incrivelmente traumático e ruinoso. A obsessão de Humbert com Dolores não é uma espécie de amor supremo. Não há absolutamente nenhuma razão para rotular isso como um objetivo de relacionamento, um objetivo de vida, etc. Não interprete erroneamente seu abuso como amor, não é amor, é abuso.
Não interprete erroneamente os estupros repetidos como sexo, não existe sexo consentido com uma menina de doze anos de idade. Nunca.

9)    A intenção de Nabokov provavelmente não romantizaria essa situação. Nabokov disse em uma entrevista que Humbert não foi escrito como um personagem que deveria ser amado ou considerado moralmente bom. Foi a própria sociedade que decidiu romantizar seu comportamento e não o autor. Isso indica algo sobre nossa sociedade? Talvez.

10) Validar e romantizar o estupro de uma criança contribui para a cultura do estupro, a acusação da vítima e a autoculpa das vítimas.
Mais uma vez, sinto que não deveria ter que explicar isso. A cultura do estupro é um conceito que basicamente se resume à normalização e romantização ocasional do estupro. O protagonista nesta narrativa é um estuprador, ele não deve ser visto como alguém que é amoroso e maravilhoso, ele é alguém vil e digno de ódio. O conceito da vitima ser a única culpada por seu abuso, por ser uma “menina atraente”, é um dos maiores indicativos da cultura do estupro em nossa sociedade. Culpar uma criança pelos estupros que ela sofreu não é aceitável. A autoculpa é extremamente prejudicial; quando a sociedade diz à vítima que ela é a culpada, ela acredita nisso. Ela é frágil, está traumatizada e não ser culpada por nada. Mais uma vez: uma criança (ou qualquer outra vitima, independente da idade) não é culpada pelo abuso.

Existem diversas obras de ficção que tratam esse tipo de comportamento violento e prejudicial, como algo bonito e que deve ser seguido. Cabe a mim, a você e a toda a sociedade ter consciência sobre o que é ou não errado e o que não deve ser seguido. Coloque a mão na consciência e veja como a disseminação dessas ideias podem afetar a vida de milhares de pessoas. Não romantize violência. Não romantize abuso. Não romantize o que te faz mal.


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