Nota: Antes de
começarmos quero deixar claro que eu não acho que o próprio Nabokov fosse um
pedófilo. Eu não acho que ele tenha escrito este livro com a intenção de
romantizar a situação, pelo o contrário, acredito que a intenção do autor
era, na verdade, escrever uma narrativa a partir da perspectiva de um
verdadeiro vilão / criminoso e alertar as pessoas sobre o crime. Não estou
dizendo que este livro não deva ser lido / vendido. No entanto, embora eu
ache que essa narrativa seja importante, sou inflexível em não romantizar os
eventos. Eu decidi postar este artigo, pois estamos vivendo um momento de
romantização do assédio e existe um equívoco comum de que Lolita tem algo a ver
com amor. Não tem. Teremos spoilers.
Lolita de Vladimir Nabokov é um livro extremamente
conhecido. Alguns consideram uma história de amor, algo que eu considero
profundamente falho, falho sendo um eufemismo grosseiro. Nós vemos e
ouvimos algumas referências a Lolita na cultura pop. As
canções de Lana Del Rey, Lolita e Off to the
Races,incorporam linhas ou conceitos da narrativa, Pretty Little
Liars usa o livro como uma pista na segunda temporada para explicar o apelido
de um personagem: Vivian Darkbloom.
Além do estilo Lolita para
citar apenas alguns exemplos.
Muitos de nós já ouvimos a famosa introdução: "Lolita, luz da minha vida, fogo da minha
virilidade. Meu pecado, minha alma..." e sem o devido contexto, essas linhas
podem parecer românticas. O motivo inicial que me fez comprar Lolita quando
ainda era uma adolescente, foram essas linhas de abertura e o senso comum de
que se tratava de uma linda história de amor. Eu não tinha ideia de que
estava comprando uma narrativa sobre a perspectiva da mente de um pedófilo e
isso me fez pensar em todas as vezes em que me indicaram esse livro. A
pedofilia nunca foi citada como parte da história.
Aqui estão 10 razões pelas quais Lolita
não deve ser romantizado:
1) Humbert Humbert não é um mocinho. Ele é sexualmente atraído por
crianças. As 'ninfetas' que ele descreve não são mulheres, são meninas
pré-adolescentes. A pedofilia, quando praticada, é uma coisa horrenda que
traumatiza suas vítimas. E Humbert coloca em prática suas fantasias, o que
o torna nada além de um pedófilo.
2) Lolita, nome verdadeiro Dolores, é
uma criança. Dolores Haze, a própria Lolita, é uma garota de 12 anos. Você leu
certo, ela tem doze anos e Humbert decide alugar o quarto na casa da garota
apenas para ficar próximo a ela.
3) Humbert manipula seu caminho em sua
vida. Depois de
inicialmente se situar mais perto de Dolores, Humbert finge amar a mãe de
Dolores, casando-se com ela enquanto continua a ficar obcecada pela menina.
4) Humbert sequestra Dolores e mente
sobre a morte de sua mãe. Quando a mãe de Dolores morre atropelada por um carro, Humbert vai
buscar Dolores no acampamento, mentindo e alegando que sua mãe está doente e
que eles irão visitá-la. Humbert é seu novo padrasto e, embora saiba que
não deveria, corre para buscá-la, temendo que ela seja enviada para morar com
parentes de sangue e fique longe dele.
5) Humbert estupra repetidamente
Dolores. Depois de sequestrar Dolores, Humbert repetidamente a estupra. As
agressões começam nos quartos de hotel e duram pelo resto do “romance” até que
ela finalmente escapa com a ajuda de um homem desconhecido.
6) Nunca é um bom momento para
romantizar estupro. Eu sinto que isso deveria ser óbvio, mas, digamos que você tenha lido Lolita e
não tenha interpretado essas cenas como estupro, tenha em mente apenas um fator
determinante: Dolores é uma criança.
7) Vivemos em uma sociedade que está
repleta da hipersexualização de meninas jovens. O conceito da ninfeta é, por si
próprio, horripilante. É um termo cunhado para se referir a crianças que
um homem adulto acha sexualmente atraente. Este não é um comportamento
que deve ser tolerado em nossa sociedade, muito menos romantizado.
8) As experiências de Delores não são
românticas, são traumáticas. Eu não vou começar este conceito com “imagine ser uma vítima de estupro
de 12 anos, forçada a viver com seu estuprador”, porque, felizmente, não posso
imaginar esse tipo de inferno. Não é possível que alguém que não estivesse
nessa situação pudesse, mas eu me sinto confortável supondo que isso fosse
incrivelmente traumático e ruinoso. A obsessão de Humbert com Dolores não
é uma espécie de amor supremo. Não há absolutamente nenhuma
razão para rotular isso como um objetivo de relacionamento, um objetivo de
vida, etc. Não interprete erroneamente seu abuso como amor, não é amor, é abuso.
Não interprete erroneamente os estupros repetidos como sexo, não existe sexo consentido com uma menina de doze anos de idade. Nunca.
Não interprete erroneamente os estupros repetidos como sexo, não existe sexo consentido com uma menina de doze anos de idade. Nunca.
9) A intenção de Nabokov provavelmente
não romantizaria essa situação. Nabokov disse em uma entrevista que Humbert não foi escrito como um
personagem que deveria ser amado ou considerado moralmente bom. Foi a própria
sociedade que decidiu romantizar seu comportamento e não o autor. Isso indica
algo sobre nossa sociedade? Talvez.
10) Validar e romantizar o estupro de uma
criança contribui para a cultura do estupro, a acusação da vítima e a autoculpa
das vítimas.
Mais uma vez, sinto que não deveria ter que explicar isso. A cultura do estupro é um conceito que basicamente se resume à normalização e romantização ocasional do estupro. O protagonista nesta narrativa é um estuprador, ele não deve ser visto como alguém que é amoroso e maravilhoso, ele é alguém vil e digno de ódio. O conceito da vitima ser a única culpada por seu abuso, por ser uma “menina atraente”, é um dos maiores indicativos da cultura do estupro em nossa sociedade. Culpar uma criança pelos estupros que ela sofreu não é aceitável. A autoculpa é extremamente prejudicial; quando a sociedade diz à vítima que ela é a culpada, ela acredita nisso. Ela é frágil, está traumatizada e não ser culpada por nada. Mais uma vez: uma criança (ou qualquer outra vitima, independente da idade) não é culpada pelo abuso.
Mais uma vez, sinto que não deveria ter que explicar isso. A cultura do estupro é um conceito que basicamente se resume à normalização e romantização ocasional do estupro. O protagonista nesta narrativa é um estuprador, ele não deve ser visto como alguém que é amoroso e maravilhoso, ele é alguém vil e digno de ódio. O conceito da vitima ser a única culpada por seu abuso, por ser uma “menina atraente”, é um dos maiores indicativos da cultura do estupro em nossa sociedade. Culpar uma criança pelos estupros que ela sofreu não é aceitável. A autoculpa é extremamente prejudicial; quando a sociedade diz à vítima que ela é a culpada, ela acredita nisso. Ela é frágil, está traumatizada e não ser culpada por nada. Mais uma vez: uma criança (ou qualquer outra vitima, independente da idade) não é culpada pelo abuso.
Existem
diversas obras de ficção que tratam esse tipo de comportamento violento e
prejudicial, como algo bonito e que deve ser seguido. Cabe a mim, a você e a
toda a sociedade ter consciência sobre o que é ou não errado e o que não deve
ser seguido. Coloque a mão na consciência e veja como a disseminação dessas
ideias podem afetar a vida de milhares de pessoas. Não romantize violência. Não
romantize abuso. Não romantize o que te faz mal.
















